2.12.2014

NA PRAXE DOS ANJOS

Na Praxe dos Anjos - Laetitea
Muito se enroscou em volta dos seis estudantes da Universidade Lusófona de Lisboa que perderam a vida, a 15 de Dezembro. Pois bem, no âmbito do debate público em curso sobre a forma de integração no meio universitário, não vou dar seguimento a questões teoréticas, empíricas ou pragmátco-políticas que o tópico do crime suscita nesta matéria - nomeadamente na polaridade dialéctica entre tais códigos do foro académico e a sociedade criminógena e punitiva - nem formalizar juízo sobre as boas ou más práticas da comunidade estudantil. Neste caso, sem querer effleurer o mito lambrosiano, tudo depende do respeito pelas exigências fundamentais do positivismo: a negação do livre-arbítrio e a crença no determinismo e no postulado da previsibilidade dos fenómenos humanos, recondutíveis a "leis". No quadro criminal, pois, não havendo qualquer inimputabilidade (penal) expressiva quanto ao domínio universitário e/ou estudantes com mais de 16 anos, a justiça deverá prosseguir conforme os seus trâmites normais. A minha publicação basear-se-á noutros patamares que eu considero, esses sim, merecedores de algum debate. Habitualmente identificamos Universidade com ensino e investigação científica. Hoje, o melhor modo de identificar a Universidade é falar de uma instituição instável que procura desempenhar uma certa missão social, quando, na prática, tem vindo a amolar terreno no sentido contrário. Não faz efectivamente sentido que se mantenham vigentes princípios celebrados há muitas décadas, cujas regras se encontram hoje fixadas em valores, simbólicos, comprometidos com a necessidade de uma mais aprofundada e sistematizada reflexão. A minha residência - efectiva - em Portugal apenas aconteceu nos primórdios dos anos 2000, pelo que, apesar do meu percurso académico desde então firmado deste lado dos Pirenéus, não me considero a pessoa ideal para fomentar julgamentos sobre questões condimentadas pelos anos antecedentes. Vamos então à reflexão.

Será útil, neste contexto, recordar que a universidade não continua a receber uma pequeníssima percentagem do grupo etário 18 - 24 anos, uma elite muito seleccionada pelos ensinos básico e secundário, com características socioculturais idênticas. O universo dos jovens que a povoam é um conjunto cada vez mais diverso, heterogéneo, carregado de aspirações e expectativas sociais diferenciadas. Em Portugal, os estudantes aprendem através do cultivo da passividade, pelo "tirar" apontamentos, como se a inactividade, a repetição e a aprendizagem livresca fossem rampas de lançamento para o fomento das competências mais importantes à entrada do mercado de emprego. É um facto. E por falar em mercado, já agora, será o mercado capaz de entender e aproveitar o enorme leque de especializações e subespecializações produzidas pela universidade, embora algumas centenas dos seus cursos não sejam legíveis por mais de noventa e cinco por cento dos empregadores?!

Consta (...) que os jovens alunos, irreverentes, não estão preocupados com o seu futuro profissional, que não têm medo do desemprego, da insegurança no trabalho, que não estão inquietos com o modo de concretizar um projecto pessoal de vida e com o meio como vão ter acesso a "um estatuto e a um reconhecimento". 
Dado o meu envolvimento com algumas escolas, sou frequentemente confrontada com perguntas sobre o exercício desta ou aquela profissão, nomeadamente dentro do sector audiovisual. Não existe praticamente nenhuma informação sobre profissões no Sistema Educativo, quer secundário quer superior, desde logo, incapaz de esclarecer, orientar e preparar os jovens sobre os seus cursos, as suas saídas profissionais, a evolução do mundo do trabalho e o funcionamento do mercado de emprego.

Esta semana fui informada, por um dos elementos responsáveis pelo recente inquérito - exaustivo - promovido pela Santa Casa da Misericórdia, de que parte dos sem-abrigos identificados em Lisboa era diplomada pelo ensino superior. 
A universidade age como se os seus diplomas continuassem a representar uma garantia de obtenção de um "bom" emprego, ou mediante a gravidade da situação actual, de um emprego tout court. Infelizmente, o desemprego de diplomados já alcança, entre nós, as dezenas de milhares e os seus diplomas desvalorizam-se todos os dias. Os estudantes estão interessados em estudar, obter uma formação de elevada qualidade e procurar um emprego compatível; porém, um número cada vez maior entre eles está interessado sobretudo em não estar (ou não cair na situação de) desempregado.

Pode a universidade continuar a actuar como se aquilo que ela ensina fosse o essencial para a evolução da sociedade, para a cultura e para a economia, num momento em que todos os sectores criticam o seu ensino e se servem dos seus títulos e diplomas sobretudo como informação para ordenar empregos, distribuir remunerações, fomentar ou confirmar estatutos sociais?! 
Quanto aos custos, a universidade procura ser gratuita? Isto é, no mesmo país em que a educação pré-escolar é tão cara e a sua taxa de "cobertura" é ainda tão insuficiente?! Confrontados com novas necessidades de formação ao longo de toda a vida profissional, constatou-se, sob o título de empregadora ou não, haver muitos milhares de cidadãos diplomados que carecem urgentemente de actualização e requalificação. Qual é o papel da universidade nesta matéria?!

São tantas as questões que ficam por levantar. Uma palavra ainda sobre um aspecto que reputo de suma importância. É para mim manifesto que toda a reflexão universitária assenta em infra-estruturas igualmente ideológicas mais ou menos enquadradas no bom-senso e se projecta em sugestões de política social mais ou menos controláveis. Assunção que procuro converter num estímulo vigilante ao Respeito perante os mais vulneráveis, necessitados ou desprotegidos, tanto no caso dos recém-chegados ao ensino superior, como na restante população que compõe o universo escolar ou académico. O desfasamento entre o que os estudantes são levados a querer e o que lhes é efectivamente acessível origina um grave problema de ajustamento. Os adolescentes que formam a nova era interiorizam uma grande ênfase nos objectivos ditos convencionais. Confrontados com as limitações das vias legítimas de acesso àqueles objectivos e incapazes de reduzir o teor das suas aspirações, experimentam uma intensa frustração. O resultado poderá ser a exploração de alternativas não conformistas. No fundo, partimos da ideia da universalização da ética de sucesso e da contradição entre uma sociedade ideologicamente igualitária e democrática, mas realmente desigual. Produz-se, assim, um potencial de frustração que, em determinadas condições, se converterá em problemas e, no pior dos casos, em criminalidade. Exigir - legitimamente - respeito entre as diferentes camadas inferiores, significa praticá-lo desde as mais elevadas instâncias. Hoje em dia, o equilíbrio entre os fins e os meios culturalmente aceites torna-se altamente instável, devido à tendência crescente para atingirem, por qualquer meio, as metas carregadas de prestígio. Sem querer enveredar pelas malhas do já referido Lombroso ou de outros nomes como o do antropólogo (meu) conterrâneo Topinard, debruçarmo-nos sobre o método como os jovens, estudantes ou não, procuram reivindicar ou impor - hierarquicamente -
os seus valores, implica rever o caleidoscópio dos nossos próprios cânones de acção e de expressividade. Por último, e num sentido muito mais lato ao qual nem eu, nem nenhum outro adulto, tem direito à demissão, Educar significa Exemplificar.  

Compete-nos, a nós, todo(a)s nós, reflectir, ponderar, decidir, trabalhar e alcançar as respostas... na praxe dos anjos!



Laetitea